Como escolher um profissional de terapias complementares em oncologia?

Jun 9 / Joana Silva e Manuela Santos
Receber um diagnóstico de cancro muda tudo. Muda o corpo, a rotina, a alimentação, o sono, a relação com o medo, a família, o trabalho e a forma como a pessoa se vê a si própria. A medicina oncológica evoluiu de forma extraordinária nas últimas décadas. Hoje existem tratamentos cada vez mais dirigidos, mais personalizados e mais eficazes. A cirurgia, a radioterapia, a quimioterapia, a hormonoterapia, a imunoterapia e as terapêuticas-alvo mudaram profundamente o percurso de muitas doenças oncológicas. Mas há uma pergunta que continua presente em muitas pessoas: Mas há uma pergunta que continua presente em muitas pessoas: “Como posso atravessar tudo isto da forma mais segura, mais informada e com melhor qualidade de vida?” É aqui que entra a oncologia integrativa. No Duplo Sentido, entendemos a oncologia integrativa como uma forma de cuidar que não substitui a oncologia convencional, mas que a complementa com rigor, segurança e humanidade. A nossa missão é ajudar pessoas com doença oncológica, sobreviventes e cuidadores a transformar a confusão do diagnóstico e dos tratamentos num plano de cuidado mais claro, seguro e possível.
A oncologia integrativa não é uma moda

Quando se fala de oncologia integrativa, pode parecer que estamos a falar de algo novo. Mas, na verdade, estamos a recuperar uma ideia antiga: a pessoa não é apenas a sua doença.A própria Organização Mundial da Saúde define saúde como um estado de bem-estar físico, mental e social, e não apenas como ausência de doença. Ou seja, cuidar nunca deveria ser apenas tratar um órgão, um tumor, uma lesão ou um marcador tumoral.A evolução científica trouxe ganhos enormes. Mas também trouxe um risco: a fragmentação. O conhecimento tornou-se mais especializado, os tratamentos mais complexos e os percursos mais difíceis de compreender para quem está a viver a doença.A oncologia integrativa nasce precisamente neste espaço: no ponto onde a excelência técnica precisa voltar a encontrar a pessoa inteira.

Então, o que é a oncologia integrativa?

A oncologia integrativa é uma abordagem centrada na pessoa que articula os tratamentos oncológicos convencionais com intervenções complementares baseadas em evidência, de forma segura, coordenada e adaptada ao contexto clínico. Uma definição internacional amplamente citada descreve a oncologia integrativa como um campo de cuidado oncológico centrado na pessoa e informado pela evidência, que utiliza práticas mente-corpo, produtos naturais e modificações do estilo de vida em conjunto com os tratamentos convencionais. O objetivo é otimizar saúde, qualidade de vida e resultados clínicos ao longo de todo o percurso oncológico. (PubMed) Na prática, isto significa que a oncologia integrativa pode incluir áreas como:
  • alimentação e nutrição;
  • exercício físico adaptado;
  • acupuntura e acupressão;
  • mindfulness e meditação;
  • hipnose clínica;
  • yoga, tai chi ou qigong;
  • estratégias de sono e regulação emocional;
  • apoio à fadiga, dor, náuseas, ansiedade e qualidade de vida;
  • avaliação criteriosa de suplementos e produtos naturais. Mas há uma regra essencial: Integrativo não é fazer tudo. É escolher melhor.

O que a oncologia integrativa não é

A oncologia integrativa não é medicina alternativa.
Não substitui cirurgia.
Não substitui quimioterapia.
Não substitui radioterapia.
Não substitui hormonoterapia.
Não substitui imunoterapia.
Não substitui terapêuticas dirigidas.
Não promete curas milagrosas.
Pelo contrário: a oncologia integrativa só faz sentido quando respeita o plano médico, comunica com a equipa clínica e ajuda a pessoa a viver melhor durante e depois dos tratamentos.
Esta distinção é fundamental porque há riscos reais quando práticas complementares são usadas como alternativa aos tratamentos convencionais. Um estudo publicado em JAMA Oncology mostrou que pessoas que usaram medicina complementar tinham maior probabilidade de recusar tratamentos convencionais recomendados, e esse padrão esteve associado a pior sobrevivência. (PubMed)
Por isso, no Duplo Sentido, a mensagem é clara: Complementar, sim. Substituir, não.

O que nos diz a evidência?

A evidência em oncologia integrativa é mais consistente no campo do cuidado de suporte: controlo de sintomas, qualidade de vida, fadiga, dor, ansiedade, sono, funcionalidade e bem-estar.

As guidelines internacionais da Society for Integrative Oncology e da American Society of Clinical Oncology têm vindo a avaliar intervenções integrativas para sintomas concretos.

Na ansiedade e depressão em adultos com cancro, a guideline SIO-ASCO de 2023 avaliou abordagens como mindfulness, yoga, relaxamento, música terapêutica, reflexologia e outras intervenções mente-corpo. (ascopubs.org)

Na dor oncológica e dor relacionada com tratamentos, a guideline SIO-ASCO de 2022 inclui recomendações para intervenções como acupuntura, acupressão, reflexologia, hipnose e massagem em contextos selecionados. (ascopubs.org)

Na fadiga relacionada com cancro, a atualização ASCO-SIO de 2024 recomenda intervenções como exercício físico, terapia cognitivo-comportamental, programas baseados em mindfulness e tai chi/qigong durante o tratamento, com outras opções em contextos específicos. (ascopubs.org)

Isto é importante porque mostra que a oncologia integrativa séria não se baseia em opiniões soltas. Baseia-se numa pergunta clínica concreta:

Para esta pessoa, neste momento, com estes tratamentos e estes sintomas, o que pode ajudar de forma segura?


Que terapias podem ser integradas de forma segura?

Depende sempre da pessoa, do diagnóstico, da fase da doença, dos tratamentos em curso, das análises, da medicação e dos sintomas.
Mas, em contexto adequado, podem ser consideradas intervenções como:
  • acupuntura ou acupressão para alguns sintomas específicos;
  • exercício físico adaptado;
  • alimentação individualizada;
  • mindfulness, meditação ou técnicas de respiração;
  • hipnose clínica;
  • yoga, tai chi ou qigong adaptados;
  • massagem em contextos seguros;música terapêutica;
  • apoio psicológico e psicossocial;
  • estratégias de sono e recuperação;
  • avaliação criteriosa de suplementos e produtos naturais.

As guidelines da Society for Integrative Oncology são apresentadas pela própria SIO como recomendações abrangentes, baseadas em evidência, para incorporar terapias complementares e integrativas na prática oncológica convencional. (integrativeonc.org)
Por exemplo, a guideline SIO-ASCO para dor em oncologia recomenda ou considera modalidades como acupuntura, acupressão, reflexologia, hipnose, massagem, música terapêutica, hatha yoga e imaginação guiada com relaxamento muscular progressivo, sempre para tipos de dor e contextos clínicos específicos. A recomendação mais forte é a utilização de acupuntura para artralgias associadas a inibidores da aromatase. Para dor oncológica geral ou musculoesquelética, podem ser consideradas acupuntura, acupressão ou reflexologia. Mas há uma regra fundamental: a intervenção deve ter um objetivo clínico claro.
No Duplo Sentido, não recomendamos “porque é natural”, “porque está na moda” ou “porque alguém disse que resultou”. Perguntamos: Para esta pessoa, neste momento, com estes tratamentos e estes sintomas, o que pode ajudar de forma segura?

Onde está a mais-valia do Duplo Sentido?

A maioria das pessoas chega à oncologia integrativa com dúvidas muito práticas:

  • Posso tomar este suplemento durante a quimioterapia?
  • A acupuntura é segura no meu caso?
  • O que posso comer quando tenho náuseas ou alterações intestinais?
  • Como posso lidar com a fadiga?
  • O que devo evitar durante a imunoterapia?
  • Como sei se uma terapia complementar é segura?
  • Como falo com o meu médico sobre isto?

O problema não é falta de informação. O problema é excesso de informação, muitas vezes contraditória, descontextualizada e pouco segura.

No Duplo Sentido, a nossa mais-valia é transformar esse ruído num plano orientado, realista e clinicamente responsável.

Acompanhamos a pessoa com uma visão integrada, cruzando:

  • diagnóstico e fase da doença;
  • tratamentos em curso ou previstos;
  • análises e toxicidades;
  • sintomas prioritários;
  • hábitos alimentares;
  • fadiga, sono, dor, ansiedade e estado funcional;
  • suplementos ou produtos naturais já em uso;
  • preferências, recursos e realidade da pessoa;
  • necessidade de articulação com a equipa médica.

Não partimos da pergunta “que terapia quer fazer?”.

Partimos de outra pergunta:

“O que é seguro, útil e prioritário para esta pessoa neste momento?”

Segurança: o ponto que não pode faltar

Em oncologia, a segurança não é um detalhe. É o centro da decisão.
Nem tudo o que é natural é seguro. Nem tudo o que ajudou uma pessoa serve para outra. Nem todos os suplementos são compatíveis com quimioterapia, imunoterapia, hormonoterapia, cirurgia, radioterapia ou anticoagulação.
Por isso, a oncologia integrativa exige avaliação.
Antes de recomendar qualquer estratégia complementar, é essencial considerar fatores como:
  • tipo de cancro;
  • fase da doença;
  • tratamentos em curso;
  • função hepática e renal;
  • hemograma, plaquetas e neutrófilos;
  • risco hemorrágico;
  • risco infeccioso;
  • presença de cateter, feridas ou mucosite;
  • cirurgia recente ou programada;
  • medicação habitual;
  • suplementos já utilizados;
  • objetivos reais da intervenção.

No Duplo Sentido, esta avaliação é uma parte central do acompanhamento. O objetivo não é acumular terapias, suplementos ou dietas. O objetivo é selecionar com critério.

A oncologia integrativa também é literacia

Uma pessoa informada participa melhor no seu cuidado.

Por isso, a oncologia integrativa não é apenas um conjunto de intervenções. É também um processo de educação, clarificação e tomada de decisão.

Ajudamos a pessoa a perceber:

o que tem evidência e o que ainda não tem;

o que pode ser útil para determinado sintoma;

o que deve ser evitado;

quando é necessário falar com a equipa médica;

como preparar perguntas para consulta;

como distinguir uma promessa perigosa de uma estratégia complementar segura.

A literacia é uma forma de proteção.

Quanto mais a pessoa compreende, menos vulnerável fica a mensagens simplistas, promessas milagrosas e recomendações desajustadas.

O papel dos profissionais de saúde

A oncologia integrativa também é importante para profissionais.

Muitos enfermeiros, médicos, nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas, acupuntores e outros profissionais de saúde reconhecem que os doentes procuram estas respostas, mas nem sempre se sentem preparados para responder.

E quando os profissionais não falam sobre o tema, o doente continua a procurar — apenas o faz fora do sistema, muitas vezes sem segurança.

Por isso, o Duplo Sentido tem também uma área formativa para profissionais de saúde. O objetivo é criar linguagem comum entre a oncologia convencional e as abordagens complementares baseadas em evidência.

Acreditamos que a barreira não está apenas na evidência. Está no sistema, na estrutura e na falta de formação partilhada.

E acreditamos profundamente que os enfermeiros podem ser um motor desta mudança, porque a génese da enfermagem sempre foi cuidar da pessoa como um todo.

Quando procurar acompanhamento em oncologia integrativa?

Pode fazer sentido procurar acompanhamento quando a pessoa:
  • recebeu recentemente um diagnóstico oncológico e se sente perdida;
  • vai iniciar quimioterapia, radioterapia, imunoterapia ou hormonoterapia;
  • quer saber que suplementos deve evitar;
  • tem fadiga, ansiedade, alterações digestivas, dor ou insónia;
  • quer melhorar alimentação e estilo de vida de forma segura;
  • terminou tratamentos e não sabe como regressar à vida;
  • é cuidador e precisa de orientação;
  • quer integrar terapias complementares sem pôr em risco o tratamento médico;
  • é sobrevivente de cancro e quer melhorar a sua saúde.
A oncologia integrativa não é para “quando tudo falha”.
É uma forma de organizar o cuidado desde cedo, com segurança e bom senso.

A nossa visão no Duplo Sentido

No Duplo Sentido, acreditamos que a pessoa com doença oncológica não precisa de escolher entre ciência e cuidado humano.
Precisa dos dois.
Precisa de tratamentos eficazes, mas também de orientação para atravessar sintomas, medo, cansaço, dúvidas e decisões difíceis.
Precisa de uma equipa médica competente, mas também de espaço para perguntar:
“O que posso fazer por mim, com segurança?”
A nossa resposta é essa ponte.
Entre o hospital e a vida real.
Entre a evidência e a prática diária.
Entre o tratamento e a pessoa.
Entre o medo e a possibilidade de recuperar algum controlo.

Conclusão

A oncologia integrativa não é uma alternativa à oncologia. É uma forma mais completa, segura e centrada na pessoa de apoiar o percurso oncológico.
Não promete curas milagrosas.
Não substitui tratamentos.
Não valida tudo.
Mas pode ajudar a pessoa a viver melhor, tolerar melhor, compreender melhor e participar mais ativamente no seu cuidado.
No Duplo Sentido, acreditamos que a oncologia integrativa deve ser exatamente isto: ciência, segurança e humanidade ao serviço da pessoa com doença oncológica.

Nota editorial e Referências Bibliográficas

Artigo desenvolvido pela equipa do Duplo Sentido para promover literacia e segurança em oncologia integrativa.

Revisto por: Manuela Santos, Enfermeira Oncologista e Especialista em Medicina Tradicional Chinesa, cofundadora do Duplo Sentido.
Data de publicação: 02/05/2026
Última revisão: 02/05/2026
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação médica ou acompanhamento por profissionais de saúde. A oncologia integrativa deve ser sempre complementar, segura e articulada com os tratamentos convencionais.

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